21/9/08
TEMA PARA DEBATE (*)
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Castas culturais e castas socioeconômicas
Paulo Vellinho, empresário
Está escrito na Constituição Brasileira que todos somos iguais perante a Lei; a verdade não é bem assim.
Na Índia, por exemplo, elas existem, nas quais aos párias, por exemplo, é vedado migrar para uma casta superior; faz parte da cultura indiana.
No Brasil não existe o engessamento dos diferentes níveis sociais, já que é possível a ascensão socioeconômica de qualquer pessoa.
No entanto, pior do que castas é ter uma visão facciosa ou de indiferença das elites com relação à forma de avaliar, julgar e tratar as diferenças socioeconômicas; de um modo especial uma sensibilidade variável de acordo com “status quo” das múltiplas hierarquias da sociedade, em termos de grau de pobreza… ou de riqueza.
Durante décadas ou até séculos conviveram ricos e pobres, fazendo-o sem qualquer desconforto ou inveja, e até admiração dos menos aquinhoados com relação às elites políticas e econômicas, até com certo grau de submissão com as primeiras, às políticas… o poder de quem manda.
Convivia-se com estranho conformismo, o colarinho branco e ladrões de galinha, pois enquanto esses iam para a cadeia, amontoando-se nas desumanas e superlotadas celas, imundas, promíscuas e deseducadoras, os outros, os ladrões públicos e privados, de colarinho branco, eram considerados intocáveis, mesmo quando evidenciando sinais exteriores de riqueza incompatíveis com sua renda. Acreditava-se até que os mesmos tinham um pacto com a impunidade, estando acima do bem e do mal.
Ladrão de galinha ia para o “pau-de-arara” para confessar o que tinha ou não feito, enquanto o de colarinho branco passava incólume na sua trajetória de prática do mal.
Enquanto isso, a sociedade desarticulada assistia conformada à discriminação praticada por aqueles que detinham o poder.
A valorização dos direitos humanos, no Brasil e no mundo, eliminou essa anomalia e pela primeira vez colocou-se no mesmo nível o homem, independentemente de seu status.
Colarinho branco desonesto e ladrão de galinha passaram a ser julgados apenas pelos seus crimes, como iguais perante a lei.
Mudou-se então o processo, substituindo-se a violência física pela moderna tecnologia, que não fere fisicamente os pseudo-réus, como por exemplo a escuta telefônica, na qual o diálogo gravado entre as partes torna-se o próprio instrumento de comprometimento e acusação.
Nos últimos meses os “colarinho branco” e seus parceiros passaram a corporativar-se com campanhas bem orquestradas visando restabelecer a discriminação anteriormente existente ao pretender exterminar as modernas ferramentas que os fragiliza perante a Justiça… esquecendo os “Daniel Dantas”!
Estes senhores, seus patrocinadores, padrinhos ou compadres, que nunca protestaram contra o camburão, as algemas e as celas imundas quando executadas contra os “ladrões de galinha”, de repente se mobilizaram e se articularam contra o que chamam de abuso contra a sua (in)dignidade, protestam contra as escutas telefônicas, o uso das algemas, exigem fórum e celas especiais, os assim chamados direitos dos ladrões públicos.
Ao invés de justificarem suas tramas telefônicas, protestam, negam suas próprias vozes e mobilizam suas claques para proteger-se das modernas ferramentas usadas pela Polícia Federal por exemplo, em vez de procurarem explicar para a sociedade suas conversas incriminadoras.
Na verdade, os poderes constitucionais são representantes da sociedade e a ela devem prestar contas, mas não só deixam de fazê-lo, como ainda corporativam-se para evitar as provas que os incriminam.
Ao contrário, nós, os cidadãos brasileiros, a maioria honrada da sociedade, temos de conviver com a impunidade, o triste arquivamento das CPIs e todos os outros processos que nos revoltam e que infelizmente desembocam sempre em uma indigesta pizza que nos é enfiada goela abaixo.
Aponte-nos colarinho branco que esteja na cadeia e não tenha saído pela porta dos fundos, voltando até as colunas sociais, deixando-nos com cara de idiotas.
Lamentavelmente, mais uma vez repete-se o ciclo histórico: ladrão de galinha vai para cadeia enquanto o colarinho branco pretende continuar na sua soberba a sobrepor-se a nós, a sociedade maior, quase em um escárnio jogado sobre seus ombros, impiedosamente.
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(*) Fonte: Zero Hora de 21 de setembro de 2008 | N° 15733
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